Distante #45
O melhor lugar do mundo
O pior do inverno britânico, dizem alguns, não é o frio, e sim as poucas horas de luz. Por meses, vive-se uma vida em que amanhece às 8h e escurece antes das 16h. “Hello darkness, my old friend”, a frase que abre a música The Sound of Silence de Simon & Garfunkel, aparece com frequência em piadas na internet nesse período do ano. Há até uma doença própria da época, a Seasonal Affective Disorder (SAD), uma depressão causada pelos dias mais curtos e escuros do outono e inverno. A lista de sintomas inclui mau humor, falta de interesse pelas coisas que você normalmente gosta, sentimentos de culpa, desesperança ou inutilidade, sensação de inquietação ou irritabilidade, dificuldade de concentração, mais fome e comer mais do que o normal, mais cansaço e dormir mais do que o normal.
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Quando conto à minha avó que a temperatura naquela noite era de 5 graus negativos, ela solta um grito. “Nossa, que delícia! Aqui o calor está insuportável”.
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É final da tarde, o céu brilha um azul alaranjado e o frio é seco. Queremos dar uma caminhada e ver o último pôr do sol do ano, mas ainda não decidimos para onde ir. “Vamos dar uma volta por aqui mesmo”, e então entramos na rua paralela à nossa, chamada Perfect View. Ela começa como uma subida. Do lado direito, uma pequena floresta abriga pássaros que cantam o tempo todo. Depois de dois minutos de caminhada é que se chega ao topo, onde há cerca de 10 casas, umas grudadas às outras. Elas parecem ter o tamanho ideal: são pequenas o suficiente para não dar trabalho de manutenção, mas amplas e confortáveis o bastante para abrigar uma família e, talvez, alguns convidados. O fundo de todas essas casas dá para a floresta, o que faz com que seus back gardens cuidadosamente organizados se misturem à natureza selvagem. Já a frente delas dá para a tal vista perfeita, que oferece uma perspectiva fantástica de Bath, das montanhas que circundam a cidade e de um tantão de verde. O silêncio só não é completo porque os passarinhos nunca param de cantar.
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Se batêssemos em cada uma daquelas casas - se tocássemos com os dedos nas suas portas impecavelmente simples e elegantes - e perguntássemos aos moradores se eles são felizes vivendo em um lugar chamado perfeito, provavelmente eles respondessem que sim. Mas é também provável que eles tivessem alguma reclamação a fazer - olha, meu vizinho é meio barulhento, quando chove a ribanceira manda água para dentro do meu jardim, não tem nenhum supermercado por perto, aquela subidinha pra chegar aqui faz doer minha coluna, antigamente os moradores eram mais agradáveis, a minha casa podia ser um pouco maior, o sinal da internet não é tão bom aqui no meio da floresta, pra estacionar não é muito prático, toda hora tem um outro forasteiro vindo aqui para ver a vista, a entrada deveria ser privada, tem até um imigrante que bate na porta da gente fazendo umas perguntas…
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Herbert Vianna, Seja Você. “Vai sempre ter alguém / com mais dinheiro, mais respeito / mais ou menos tudo o que se pode ter / vai sempre sobrar, faltar alguma coisa / somos imperfeitos / e o que falta cega pro que já se tem”.
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Haemin Sunim, professor e monge budista coreano. “Em última análise, quer você realize algo espetacular e se sinta feliz, quer se sinta feliz simplesmente por estar ouvindo sua música favorita, a qualidade que sua mente atinge é a mesma.”
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No Natal, a vitrola toca o disco Luminoso, de Gilberto Gil. Tento explicar para uma pessoa que não é brasileira que esse álbum traz o Gil interpretando em voz e violão suas canções voltadas à investigação da espiritualidade. Enquanto falo, está tocando Aqui e Agora, dos versos “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.
— Não é interessante e difícil de acreditar — eu digo ao meu amigo gringo — que, tanto para você quanto para mim, nesse instante o melhor lugar do mundo seja essa cozinha numa casa do interior da Inglaterra?
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Oi Eduardo! Vim da sua resposta ao e-mail! Muito interessante o seu artigo ser exatamente sobre o impacto do inverno, pois hoje mesmo abri inscrições para o Desafrio, meu curso de saúde mental que visa a prevenção da depressão sazonal (inclusive, tenho que mandar um e-mail avisando). Linda sua escrita, vou começar a acompanhar seus artigos e seu trabalho! Abraço!
“É final da tarde, o céu brilha um azul alaranjado e o frio é seco.“ 🩶