Distante #43
Viver fora cansa
Uma amiga - inglesa - conta que uma conhecida sua - uruguaia - uma vez lhe confidenciou o que mais lhe agradava na ideia de deixar a Inglaterra e voltar a viver em definitivo em seu país de origem. “Nunca mais alguém vai me perguntar de onde eu sou depois de ouvir meu sotaque.” Para ela, ao quererem saber onde nasceu, as pessoas só a faziam lembrar que ela não pertencia ao país em que escolheu viver.
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Comigo, acontece o oposto. Eu gosto dessa pergunta e de responder a ela.
I’m Brazilian. I’m from Brazil. I’m originally from Brazil.
Como pode não ser interessante conversar com alguém que nasceu em um lugar que você não conhece, riu de piadas que você nunca entenderia, amou e odiou comidas que você nem sabia que existiam, participou de atividades sociais que podem soar tão interessantes quanto bizarras e, por isso tudo e ainda um tanto de outras coisas, experimenta o mundo de uma forma diferente da sua?
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É como percorrer uma trilha e, ao chegar ao fim da jornada, encontrar um sujeito que chegou naquele mesmo lugar fazendo um outro caminho. Como não querer escutar a sua história?
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Mas eu entendo profundamente a uruguaia. Viver fora cansa, embora eu não saiba explicar de que é feito esse cansaço. Às vezes acho que se parece com passar o dia carregando uma mochila pesada: você até dá conta do peso, mas isso exige um esforço. E até chupar um Chicabon fica menos gostoso se você tem que fazer isso sustentando um peso nas costas.
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Esse cansaço de viver fora é sempre um assunto nas conversas entre imigrantes. Cada um tem o seu cansaço preferido: tô cansado da língua, já eu tô cansado do povo, já eu tô cansado do frio, já eu… Talvez, se os nativos trocassem a pergunta “de onde você é?” por “o que mais está te cansando atualmente?”, talvez a uruguaia nunca tivesse ido embora.
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17h55 o ônibus vai sair às 18h o ponto fica próximo ao único café português em milhas e milhas de distância e graças aos deuses migratórios é um café que vende pão de queijo coxinha guaraná eu corro pra lá tenho fome uma fome de quem acabou de chegar de um outro país entro correndo e só quero levar comigo um pão de queijo mas antes de anunciar o que eu quero eu pergunto aos dois atendentes que me olham como se eu fosse o último cliente do dia (eu era o último cliente do dia) como sempre faço quando estou ali naquele café eu pergunto english ou portuguese e o menino começa a responder “eng…” mas a mulher se intromete e diz “purtuguêsh” e eu levanto os meus dois braços e fecho os punhos em forma de celebração ela não sabe o que eu comemoro eu também não sei mas talvez fosse apenas o meu cansaço do dia naquele dia eu só queria falar a minha língua nem que fosse por três minutos (como foi) nem que fosse para pedir um pão de queijo (um pão de queijo por favor) nem que fosse para responder se quero que esquente o pão de queijo (eu quero mas você acha que dá tempo o ônibus sai em 3 minutos) nem que fosse para ouvir que dá tempo sim mas ouvir em português (vai dar tempo é coisa rápida enquanto isso queres mais alguma coisa) nem que fosse para então perceber que sim eu quero mais alguma coisa (vou levar dois pastéis de nata), nem que fosse para pegar tudo isso e antes de sair dizer “obrigado, gente!” nem que fosse para isso para terminar o dia falando gente!



Ah, vida! Bom demais! ❤️
É sempre um prazer ler seus textos, gosto muito desse olhar sensível para a vida