Distante #42
Eu trago um anjo nos braços e ouro no coração
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Quanto eu te devo pela corrida? Não deve nada, imagina, ele me responde. Eu retruco: não, por favor… mas ele me interrompe. É meu presente para a sua filha, me diz, com um sorriso largo, o Juninho, motorista de táxi brasileiro que nos leva para casa depois de 4 dias no hospital. É a primeira viagem da vida dela.
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Como a minha recém-nascida nasceu aqui na Inglaterra, a burocracia é muito mais fácil. A minha outra filha nasceu no Afeganistão. Nem queira saber a dor de cabeça que foi registrá-la, me diz Shafiqullah, o motorista de táxi afegão que nos leva de volta para casa depois de uma consulta em outra cidade, a nossa primeira viagem intermunicipal em família.
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Vocês têm alguém ajudando nesses primeiros dias? Isso é bom. Nós nunca tivemos. Sempre fomos só eu e minha mulher, diz Lucian, o motorista de táxi romeno que nos leva para casa às 22h46 depois de uma estadia no hospital.
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Pergunto ao motorista do táxi: por favor, você poderia parar o carro? Eu vou vomitar. Ele estaciona de qualquer jeito, eu abro a porta e avisto um matinho em meio à calçada. Ali me aconchego enquanto de dentro de mim sai apenas água. Uma passante pergunta “you all right?”, e eu levanto o polegar sem olhar para ela. Me limpo com um papel que eu trazia no bolso - eu já desconfiava que ia vomitar nessa viagem entre a maternidade e a minha casa - e olho para ver se o táxi ainda está lá. Está. Entro no carro, peço desculpas, e o motorista - Plamen, da Bulgária - me estende um lenço umedecido. Eu agradeço, peço desculpas de novo, explico que agora eu estou bem. Ele responde com uma pergunta: eu te peguei no hospital; se você não está se sentindo bem, por que é que você não ficou lá? Estou há 16 horas sem comer e sem dormir, eu respondo, porque eu acabei de me tornar pai. Ele me olha pelo retrovisor pela primeira vez. Parabéns, ele diz. Eu agradeço. Ele pergunta se estou indo para casa, eu confirmo. Ele quer saber se tenho o que comer em casa, eu digo que sim, é justamente o que vou fazer, e adiciono que também vou tomar um banho, antes de voltar para a maternidade. Ele recomenda que eu coma primeiro, para não ter risco de passar mal debaixo do chuveiro. Agora estamos na porta da minha casa, eu já estou descendo do carro, mas ele continua me dando conselhos: por favor, nada de comidas picantes ou gordurosas. Coma natural, ok? E tome água o tempo todo, o tempo todo. Melhoras. E parabéns de novo, ele encerra, soando como um pai, que eu não sei se ele é, mas naquela corrida, foi.
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meu querido, um abraço apertado.
que texto lindo, que jornada linda essa que se inicia.
um beijo e parabéns a vocês <3
Marvellous writing! Love your delicate exploration of the experience of dislocation