Distante #38
Na farmácia, na recepção e no futebol
Distante é uma newsletter que escrevo desde outubro de 2021. Foram 37 publicações em inglês e português. Mas, a partir desta edição #38, ela passa a ser exclusivamente em português. Se você também quer receber minha nova newsletter escrita 100% em inglês chamada Onda de Amor, é só assinar gratuitamente aqui.
Distante is a newsletter I've been writing since October 2021. To date, there have been 37 editions available in both English and Portuguese. Starting with issue #38, it will be published exclusively in Portuguese. For English speakers, I've got a brand-new, 100% English newsletter called Onda de Amor. Subscribe for free.
“Para os europeus, ganhar não muda a vida deles. Para nós, sim", disse ontem o técnico do Flamengo, Felipe Luís, ao ser perguntado sobre a importância do jogo de hoje entre o time carioca e o inglês Chelsea.
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Vou à uma farmácia local comprar aspirina. O atendente pergunta porque eu preciso desse remédio. Eu respondo que é era para a minha companheira grávida de 8 meses. Ele me responde que não pode vender a aspirina porque eu não tenho receita. Eu respondo que compro aspirina para ela há 8 meses e nunca me pedirem receita. Ele não quer saber. Eu vou embora da farmácia, mas antes de subir a rua que me levaria pra casa, abro o meu celular e entro no site do NHS. E está lá escrito que não é necessário apresentar receita para comprar aspirina - um produto que nas gôndolas de supermercado no Reino Unido é vendido ao lado de chocolates e bolachas. Retorno então à farmácia, que se chama Well, e mostro ao atendente o site do NHS. Estou no meio da frase “desculpe, mas eu consultei o site e diz que…", quando o atendente - inglês, alto, loiro, 30 e poucos anos - começa a mexer as suas mãos como um guarda de trânsito gesticulando para os motoristas não seguirem em frente. Da sua boca saem frases repetidas: “nada do que você me disser vai me fazer vender aspirina para você, nada do que você me disser vai me fazer vender aspirina para você, nada do que você me disser vai me fazer vender aspirina para você". Tento explicar a ele que uma mulher grávida de 8 meses não irá tomar a medicação por causa disso, mas ele continua fazendo o gesto e repetindo a frase, então vou embora. Ao chegar em casa, não sei exatamente porque, digito o nome da farmácia no Google. Encontro uma única avaliação sobre o estabelecimento. É um texto assinado por uma mulher. O título é “uma pitada de xenofobia" e relata uma história vivida pelo marido dela, imigrante, que foi à mesma farmácia em fevereiro deste ano. Horas depois, compro a aspirina no supermercado por £0.79.
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Uma amiga está trabalhando na recepção do college que oferece cursos de inglês para pessoas que falam outras línguas, ou seja, imigrantes. Somos uns dos alunos que finalmente estão encerrando o curso depois de um ano e meio tendo aulas todas às quartas e quintas à noite. Comemoramos timidamente com a nossa amiga - acabou! - e ela diz que está feliz porque agora teremos as quartas e quintas livres para encontrá-la. Uma mulher de uns 50 anos está na fila da recepção e parece interessada na nossa conversa. “Parabéns por concluírem o curso. Qual é a sua mother language?”. A dela é punjabi, a língua mais falada no Paquistão. “Mas também falo espanhol", adiciona, com sotaque britânico. Seu nome é Samira. Aprendemos que ela está ali na recepção porque a filha, adolescente, também está finalizando algum curso. Falamos sobre como é interessante e desafiador dominar mais de uma língua. Às vezes cansa o cérebro, alguém brinca, e todos concordamos. A amiga que trabalha na recepção não faz nenhum comentário, mas escuta com atenção. Ela é inglesa e eu não sei se ela fala outras línguas. Terminamos o papo elogiando as belezas da região que nós todos moramos, e Samira aproveita para dar umas dicas de passeios dos quais nunca tínhamos ouvido falar. Ela diz que vai torcer para nos encontrar por aí. Tudo não dura mais do que 10 minutos. Horas depois, eu comento com a Ju. “Estou sentindo uma felicidade estranha depois da conversa que tivemos hoje com a Samira. Aquilo não foi nada demais. Mas foi muito bom".



que relato bonito, sensível, obrigada por este texto :) parabéns pelo bebê!
tão bom te ler!
tão bom viver todas as histórias ao seu lado ❤️
torcendo pra encontrar a Samira por aí em breve ☺️